quarta-feira, 28 de outubro de 2009

ANÚNCIO DE EMPREGO

Empregado da IPCP cumprindo seu dever

A seguir, transcrevo um anúncio de emprego que encontrei nos classificados do principal jornal da Terra da Cocanha, O POLENTEIRO. Em vista da clareza do texto, eximo-me de qulquer comentário ou interpretação (aprendi com os cocanheses que não se mexe mais a polenta depois de pronta...).

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"A Indústria de Polenta Congelada no Palito (IPCP) procura profissionais para atuar em suas fábricas, conforme as seguintes exigências:
1) gostar de polenta
2) ter ascendência cocanhesa
3) falar e escrever cocanhês ou polentaliàn
4) usar tamancas ou botinas de sete-léguas
5) ter condução própria
6) concordar com o batismo semanal na farinha de milho
7) não conhecer nenhum meirinho, advogado ou juiz
8) estar em dia com a mensalidade da igreja
9) participar de algum coral ou grupo de danças folclóricas cocanhesas
10) ter dois anos de experiência em organização de filós
11) comprometer-se a atribuir as melhores notas nas pesquisas de satisfação sobre o trabalho na empresa, elaboradas pelo POLENTARY local
12) comprometer-se a sempre falar bem da empresa à comunidade, mas em contrapartida criticar a concorrência
13) nunca reclamar do salário, não fazer greve nem associar-se ao Sindicato dos Trabalhadores da Indústria da Polenta (aqueles comunistas!)
14) concordar com os métodos de refinamento da farinha de milho integral
15) não revelar, nem sob tortura, a receita de polenta utilizada pela empresa
16) ter habilidade inata para o manuseio do pilão e dos paus de polenta
17) demonstrar a mesma pujança dos cocanheses pioneiros
18) participar dos certames esportivos, palestras motivacionais, gincanas e concursos temáticos (sobre a polenta) organizados pela empresa nos finais de semana
19) demonstrar amor pela empresa e pelo trabalho
20) rejeitar sempre qualquer oferta de suborno, promoção ou gratificação
21) saber interpretar a canção “La bella polenta”
Os interessados em trabalhar na IPCP – munidos com cinco cartas de recomendação, currículo (modelo POLENTALATTES), atestado de boa conduta (emitido pela cúria diocesana) e cópia da árvore genealógica da família (documentada com fotos e certidões de batismo) – devem apresentar-se na matriz ou em qualquer uma das 15 filiais da empresa localizadas na Terra da Cocanha.

Venha trabalhar conosco: o seu trabalho é a nossa maior realização!
Nane Tamanca
Diretor Geral"
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sábado, 24 de outubro de 2009

A LENDA DA POLENTA

O milharal sob as águas do dilúvio (10°dia)

A LENDA DA POLENTA
Por Joanim Pepperoni, Phd

A Irma Overlock, Radicci e Dom Jerico

No princípio era o milho: erva anual de até três metros de altura, da família das gramíneas, com folhas lanceoladas, espiguetas masculinas em panícula terminal e espiguetas femininas axilares gerando espigas com grãos amarelos (Milhonis granulorum sabuguensis).
E vendo Deus que os grãos eram muito duros para serem triturados por humanos desdentados, pensou por algum tempo e depois agiu: tocou o solo e dele fez brotar um vulcão, cuja lava formou uma imensa elevação basáltica sobre a qual assentou a Terra da Cocanha. E confiando Deus que aquilo que tinha criado era bom, do mesmo material forjou o Nane Tamanca para que aprimorasse a sua criação. E novamente confiando Deus que aquilo que tinha criado era bom, do mesmo magma temperou a Mama, para que fiscalizasse e aconselhasse o Nane em tudo o que pusesse a mão. E, no sétimo dia, confiando Deus que aquilo que tinha criado era realmente bom, decidiu recolher-se às profundezas do céu para descansar.
Porém, nunca mais teve descanso...
Encontrando-se sozinhos no paraíso cocanhês, O Nane e a Mama puseram-se, primeiro, a fazer inúmeros Nanettos para auxiliarem no trabalho e povoarem a Terra da Cocanha. Tudo parecia bem: trabalhavam e agradeciam com hinos e orações tudo aquilo com que Deus os abençoava: o milho, o milho e o milho. Até que um dia, numa longa disputa pela divisão entre dois lotes, Nanetto Cainha assassinou brutalmente o irmão Nanetto Abel.
E pela primeira vez Deus revolveu-se no sono profundo de sua alcova celestial...
Assim, estavam lançadas as malignas sementes da discórdia, da cobiça e do empreendorismo no abençoado solo da Terra da Cocanha. Os filós transformaram-se em reuniões de homens de negócios; os templos foram ricamente adornados com peças de ouro, e a fé encorpou-se com o verniz dos luxuosos encontros sociais; as propriedades ganharam cercas farpadas, e os filhos tiveram que migrar para lugares longínquos em busca de novas cocanhas; o preço do milho inflacionou assustadoramente, e a fome passou a grassar nas ruas e a grasnar nas panelas vazias.
Se Deus, no princípio, tivesse sonhado com tudo isso, não teria criado o milho ou teria inventado logo a polenta...
O Nane Tamanca arvorou-se num deus e, porque havia muitos famintos desdentados na Terra da Cocanha, desenvolveu, com muito engenho e paciência, a nanetecnologia. Mirabolantes máquinas saíram de sua cabeça, para reduzir o milho (Milhonis granulorum sabuguensis) a um pó dourado (Milhonis farinensis): o debulhador de milho, o moedor de sabugos, o pilão manual, o monjolo e o moinho movidos com energia hídrica, entre tantas outras maravilhas reveladas somente aos escolhidos.
O Nane aliou-se a outros Nanes, que monopolizaram a produção do milho e da farinha, e enriqueceram rapidamente. A fome dos trabalhadores era mitigada com pequenas porções de farinha de milho que se ligava pela saliva dentro das bocas famintas, antes de percorrer os deploráveis esôfagos e mofar nos estômagos ulcerados. Enquanto isso, os ricos empreendedores locupletavam-se com mingaus de toda ordem, aos quais adicionavam pinhões e outros guisados tão insípidos quanto a própria farinha seca. Em razão disso, a pelagra disseminava-se em todos os lares, desde os mais ricos até os mais pobres.
E o que Deus viu das alturas foi uma Babilônia de paphlagônios assolados pela demência, pela diarréia e pela dermatite. Foi então que enviou o dilúvio para destruir sua própria criação. Chamou o Nane e deu-lhe as instruções: que abandonasse tudo, construísse uma arca nanetcnológica e se preparasse para o desastre diluviano. Em razão de ter sido o escolhido para aprimorar sua criação, Deus lhe dava uma nova chance para se retratar.
E choveu durante 40 dias e 40 noites. As águas cobriram as montanhas da Terra da Cocanha e tudo o que tinha vida sobre ela veio a perecer. Só sobraram o Nane Tamanca, a Mama e alguns poucos nanettos que estavam dentro da arca. E a Arca de Nane pairou sobre as águas misteriosas e revoltas pela fúria divina, durante longos 150 dias. Após 136 dias, Nane abriu a janela que fizera na arca e soltou um corvo, que ficou voando de um lado para o outro. Depois soltou uma pomba para ver se a água havia baixado, mas a pomba não tendo achado lugar para pousar, retornou para a arca.
Nane esperou mais alguns dias e soltou a pomba novamente. Quando ela retornou trouxe no bico um raminho novo de Milhonis granulorum sabuguensis; Nane entendeu então que as águas tinham baixado. Esperou mais sete dias e soltou a pomba mais uma vez. Desta vez ela não voltou. Então Nane removeu a cobertura da arca, olhou e viu que o solo estava enxuto. Saiu com sua família e retornou ao moinho.
E Deus apareceu a Nane e disse-lhe:
– Nunca mais vou destruir a Terra da Cocanha. Enquanto durar esta Terra, não deixarão de existir sementes de milho e pinhões, frio e calor, verão e inverno, dia e noite.
Abençoou Deus a Nane e a seus filhos e lhes disse:
– Multiplicai-vos mais uma vez e enchei a Terra da Cocanha.
Famintos e esfarrapados, mas vivos e exultantes com a superação da provação divina, entraram nas ruínas do velho moinho. Em uma tulha arruinada, restava um pouco de farinha encharcada pelas águas diluvianas. Quando levou, tremulamente, a primeira porção à boca, Nane teve uma indescritível surpresa: o guisado de farinha tinha um gosto diferente, mais picante e agradável ao paladar. Era a água do mar que, providencialmente, misturara-se às águas pluviais, invadira a tulha e operara o milagre.
Depois disso, o Nane inventou o fogolare, os caldeirões e as colheres de pau. Surgia, assim, a tão abençoada polenta da Terra da Cocanha (Guisadus farinaceus cocanhensis).
Mas apoderando-se do milagre divino, o Nane Tamanca patenteou-o da mesma forma que todas as suas outras invenções. Logo depois, inventou o turismo e os restaurantes, e passou a vender fatias de polenta aos visitantes como se fossem valiosas barras de ouro do melhor quilate.
E Deus, vendo tudo aquilo, deu as costas, cobriu o rosto com as mãos e ninguém sabe se riu ou chorou...

sábado, 17 de outubro de 2009

AS MIL E UMA UTILIDADES DO SABUGO

O sabugo, fonte de renda.


Queridos leitores:
A reflexão de hoje foi suscitada pela empertigada pergunta de um leitor deste mural, o Sr. Gorgonzolla Netto, também profundo questionador das verdades impostas pelos conglomerados polentônicos, pelos milheiros, pelos sabugueiros e pelos ideólogos da polenta, etchétere et quale... Em razão de a pergunta merecer mais que uma evasiva resposta, decidi fazer uma reflexão teórico-filosófica embasada em dados empíricos e orientada por uma metodologia científica de comprovada eficácia. Logo, não inventarei nenhuma informação, nem me apropriarei indevidamente do conhecimento desenvolvido por meus ilustres colegas pesquisadores. A seguir, respectivamente, a pergunta do Sr. Gorgonzolla e minha admirável resposta:

“Sr. Joanim, já inventaram milho sem sabugo na Terra da Cocanha?”

Caro Sr. Gorgonzolla:
Peço desculpas tanto pela sinceridade quanto pela prolixidade da minha resposta: a nanetecnologia produz maravilhas, mas ainda não faz milagres! Todavia, creio que os cocanheses não têm nenhum interesse em eliminar o sabugo, pelas seguintes e bastantes razões: 1) ele substitui o papel higiênico por ser barato e ecologicamente correto (e possuir uma tripla função...); 2) ele substitui a lenha para aquecer os fogolares em que se prepara a polenta; 3) ele tem grande importância nanindustrial, ao ser usado no lugar do carvão mineral; 4) ele é adicionado à ração dos animais e, sub-repticiamente, aos alimentos humanos, como a farinha integral (um composto de palha, grãos de milho e sabugos), o açúcar mascavo, o café, as salsichas e salames, etchétere et quale...; 5) quando manipulado por mãos criativas, resulta em belíssimas obras de arte, semelhantes às conhecidas esculturas de polenta; 6) na educação dos bambinos, substitui com eficácia pedagógica os bloquinhos de madeira e de polentinha frita; 7) também substitui as rolhas de cortiça em garrafas e garrafões; 8) nos esportes, é utilizado como medalha para os atletas (cada um recebe um sabugo com o tamanho respectivo à posição alcançada); 9) na construção civil, é usado como isolante térmico e acústico; 10) no banho, serve como esponja (bucha) e escova; 11) na estética e na dermatologia, constitui excelente esfoliante; 12) na medicina, torna-se um eficiente desconstipante; 13) durante os períodos de estiagem amorosa, transforma-se em providencial “apetrecho de consolo”; 14) and polent bat no police, cumpre a função primordial de sustentar os grãos, compondo aquilo que todo mundo conhece como "espiga de milho".
Como o Sr. pode ver, Sr. Gorgonzolla, o sabugo está de tal modo entranhado na cultura cocanhesa, que sua eliminação comprometeria seriamente o funcionamento, se não a extinção, desta prodigiosa sociedade.
Afinal, na Terra da Cocanha, quem não tem sabugo não pode ser visconde nem rei!...


sexta-feira, 9 de outubro de 2009

A GUERRA DA POLENTA

Propaganda de guerra elaborada pelos padâneos
Um pesquisador sempre enfrenta muitos obstáculos para localizar e ter acesso às fontes de pesquisa que lhe interessam. Algumas vezes, a obtenção do material só é possível por meio do uso da força bruta, da esperteza e dos violentos embates verbais. Não narrarei aqui as peripécias que envolvem o panfleto acima, mas asseguro que ainda trago nas pernas e nas costas os hematomas dos violentos paus de polenta manejados por dois cocanheses enfezados...
Se há alguns "milharais" de anos houve, de fato, a sanguenta Guerra da Polenta, que ceifou "milharais" de vidas pela posse do território hoje pertencente à Terra da Cocanha, o que se deduz da leitura do panfleto e do cruzamento com outros dados é que essa guerra nunca terminou. Não se trata mais do uso da força bruta (leia-se paus de polenta, socadores de pilão e catapultas de polenta quente), mas de outros artifícios mais esmerados, como a publicidade em diferentes suportes.
O panfleto acima (que me custou semanas de repouso e uma boa dúzia de emplastros de arnica com mel) é uma prova da guerra silenciosa dos cocanheses contra outras comunidades que usam a farinha de milho como base para sua alimentação. Metaforicamente falando, o método consiste em jogar vinagre e pregos no guisado dos outros...

terça-feira, 29 de setembro de 2009

L'UOMO POLENTUS

O Uomo Polentus com seu pau de polenta
(gravura ainda sem data)

O antepassado mais próximo dos cocanheses é o que denominei, após muitas escavações e análise de material arqueológico por meio de Carbono 14, o "Uomo Polentus".
Pouco se sabe sobre este primitivo habitante dos milharais, mas há indícios fortes de que tenha desaparecido (evoluído?) com o surgimento do monjolo e do pilão.
Sua dieta alimentar em nada diferia da dos cocanheses atuais: o milho em seu último estágio de preparo, ou seja, a polenta.
É muito provável que o "Uomo Polentus" seja o elo perdido (e agora encontrado, graças a minha pesquisa!) na evolução dos cocanheses. A imagem original encontra-se disponível para visitação na Caverna de Pedra, museu construído pela administração de Polentawood para idolatrar a memória dos seus antepassados.
OBS.: Esta pesquisa só foi realizada graças ao apoio financeiro da CAMPES (Coordenadoria de Apoio à Pesquisa sobre o Milho, a Polenta e Similares)

sábado, 26 de setembro de 2009

O MONSTRENGO DA POLENTA

Representação do Sanguanel com um pau de polenta

No Bestiário Cocanhês, figura uma série de monstros, feras e animais fabulosos. Entre os mais conhecidos, estão o Vecchio do Moinho, o L’uomo do Milharal e o Monstrengo da Polenta. Este último também é chamado de Sanguanel e tem hábitos muito peculiares. Costuma sair do seu esconderijo em noites de lua cheia, porque a cor e a forma circular da lua – dizem – lembram-lhe um disco de polenta, abrindo de modo radical o seu apetite.
Há inúmeros relatos em que este monstrengo invade as casas em busca de polenta. Se não a encontra, põe a cozinha do avesso: rasga os sacos de farinha, faz coisas horríveis dentro das panelas e, o que é pior, rouba o pau de mexer a polenta. Dizem, também, que o Sanguanel entra sorrateiramente no quarto das crianças, para lamber-lhes, enquanto dormem, o excesso de polenta em torno da boca e nas mãos...
Por causa das suas maldades, atribuem-lhe as piores desventuras cotidianas: se a polenta queima na chapa, culpa do Sanguanel; se a polenta passa do ponto, culpa do Sanguanel; se a polenta embolota, culpa do Sanguanel; se a farinha caruncha, culpa do Sanguanel.
E para evitar que o monstrengo entre nas casas, os cocanheses, nas noites enluaradas, deixam à porta um avantajado disco de polenta brustolada.

sexta-feira, 25 de setembro de 2009

A TOMADA DE HOLLYWOOD

Soldados cocanheses efetivando a Tomada de Hollywood

Descendentes diretos da brava estirpe romana, altivos herdeiros da Casa dos Césares, os cocanheses conservam o espírito pujante, guerreiro e conquistador. Meia dúzia de soldados cocanheses é capaz de conquistar um continente inteiro, utilizando apenas a inteligência e alguns rudimentares artefatos bélicos - tal como a terrível catapulta de polenta que arremessa plastas de farinha mole e fervente contra os inimigos, espalhando o horror.
No instantâneo acima, o registro do momento histórico em que esses bárbaros concretizam "A Tomada de Hollywood". Na expansão e imposição do seu domínio, os cocanheses substituem imperiosamente as referências simbólicas antigas por representações da sua própria cultura.
Imagine-se, doravante, o rumo que deverá tomar a Sétima Arte sob os auspícios e a vigilância severa dos cocanheses...